sexta-feira, 3 de junho de 2016

Remorso,

de Olavo Bilac
Às vezes, uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando.
Cismo e padeço, neste outono, quando
Calculo o que perdi na primavera.
Versos e amores sufoquei calando,
Sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
Mais viver, mais penar e amar cantando!
Sinto o que desperdicei na juventude;
Choro, neste começo de velhice,
Mártir da hipocrisia ou da virtude,
Os beijos que não tive por tolice,
Por timidez o que sofrer não pude,
E por pudor os versos que não disse!

Vou-me embora para Downton



Vou-me embora para Downton.
Lá sou amigo do Conde 
Lá tenho o chá que quero
Com a torrada que escolherei.
Vou-me embora para Downton,
Aqui não sou feliz.
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Lady Violet a Condessa Viúva,
Ex-rainha de Downton,
Vem a ser contra parente
Da nora que nunca tive.
E como farei caminhadas!
Andarei em seus carros,
Montarei em seus cavalos,
Caçarei em seus campos,
Tomarei chá à tarde!
E quando estiver cansado,
Sento-me na biblioteca,
Mando chamar a Mrs. Hugges
Pra me contar histórias,
Brinco com os meninos,
E Lady Rose vem conversar.
Vou-me embora para Downton.
Em Downton tem tudo,
É outra civilização.
Tem um processo seguro
De impedir a revolução.
Tem telefone automático,
Tem criadagem à vontade.
Tem jovens Ladies bonitas
Para a gente namorar.
E quando eu estiver mais triste
Mais triste que não tiver jeito
Vontade de me matar
- lá sou amigo do Conde -
Vou-me embora para Downton!

Renan Apolônio - Olinda, 19 de Março de 2016.
Paródia de "Vou-me embora para Pasárgada", de Manuel Bandeira

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Fœderis Arca

Visão que a luz dos Astros louros trazes,
Papoula real tecida de neblinas
Leves, ethéreas, vaporosas, finas,
Com arômas de lyrios e lilazes.

Brancura virgem do crystal das phrases,
Neve serena das regiões alpinas,
Willis juncal de mãos alabastrinas,
De fugitivas correcções vivazes.

o trigo de ouro d'entre o sol florésce
E és a suprêma Religião que eu sigo...
O Missal dos Missaes, que resplandésce,

A egreja soberana que eu bemdigo
E onde murmuro a solitaria préce!...
Florésces no meu Verso como o trigo,

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Soneto da Mágoa,


de Fernando Pessoa, e continuado por José Paulo Cavalcanti


Ai! Se soubesses com que mágoa
Eu uso esse terror de amar-te
Sem poder nem dizer-te que te amo
De confuso de tão senti-lo, nem o amor perder

Se soubesse com que ódio
Não saber falar-te do que quero, me escuso....
Entenderias que nesse escrever
Revivo a alma de um poeta luso


Porque te amo como quem te odeia
Como se o Cristo ao fim daquela ceia
Beijasse o rosto do seu traidor

E te desprezo como quem tonteia
Como se o sal que corre em tua veia
Fosse a semente desse nosso amor. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Canção do Tamoio,


de Gonçalves Dias

I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D'imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d'ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranqüilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Eis aqui o homem,

de Keith B. McMullin

Aos homens do passado veio a tempo
O sacerdócio que recebeu o nome de Aarão.
Por meio dos levitas, sacerdotes e profetas,
Ele serviu para abençoar os filhos de Deus.
Então, veio o Salvador do mundo
E procurou por aquele chamado João,
Para ser batizado pelo mesmo poder
Dando início à aurora da salvação.
Em dias recentes, este mesmo poder
Foi novamente restaurado na Terra,
Para que todas as verdades do evangelho
Pudessem despertar na alma das pessoas.
Sacerdócio Aarônico, verdade sublime,
Vem em preparação —
Para que, por meio do Filho Amado de Deus
Possamos alcançar a redenção!

E aquele que ministra tais poderes —
Não pode ser chamado de rapaz.
Com o manto do sacerdócio sobre os ombros,
Dizemos dele: “Eis aqui o homem!”

Salvador, Redentor de minha alma,

de Orson F. Whitney
Salvador, Redentor de minha alma,
Cuja mão poderosa me curou,
Cujo poder maravilhoso me ergueu
e encheu com doçura minha amarga taça!
Que língua pode expressar minha gratidão,
Ó gracioso Deus de Israel.
Nunca poderei pagar-Te, ó Senhor,
Mas posso amar-Te. Tua pura palavra
não tem sido meu único prazer,
minha alegria de dia e meu sonho à noite?
Portanto, que meus lábios o proclamem ainda,
e que toda a minha vida reflita a Ti.

Mortalidade, (trecho)

de William Knox







Oh, porque deve o espírito do mortal se orgulhar?
Como um meteoro fugaz, uma nuvem ligeira a passar,
Como o quebrar da onda  como o relâmpago que fulgura,
Passa o homem da vida para seu descanso na sepultura. 

Fast and Slow,

de John Ciardi
O velho corvo está ficando lento.
O jovem corvo não está.
Das coisas que o jovem corvo não conhece
O velho corvo sabe muito.
No conhecimento das coisas, o velho corvo
Ainda é mestre do jovem corvo.
O que o corvo velho e lento não sabe?
— Como andar mais depressa.
O jovem corvo voa para cima e para baixo,
E faz círculos em volta do corvo velho e lento.
O que o corvo jovem e veloz não sabe?
—Para onde ir.1

Because,

de Edward Teschemacher

Porque você vem a mim,
Sem nada, exceto amor,
E leva-me pela mão e faz-me olhar mais alto,
Vejo um mundo mais amplo de esperança e alegria,
Porque você vem a mim.
Porque você fala comigo com doce voz,
Vejo as rosas despertarem aos meus pés,
E sou levado em meio a lágrimas de alegria até você,
Porque você fala comigo.
Porque Deus fez com que você fosse minha,
Eu te amarei
Na luz e na escuridão, por todas as épocas que virão,
E oro para que Seu amor faça nosso amor divino,
Porque Deus fez com que você fosse minha